Uma Mulher, Quatro Estações

Sempre que raia o Sol, a rasgar a penumbrada noite, recebemos mais uma confirmação de que existimos.

De que fazemos parte de uma matriz indecifrável para muitos, dogmática para outros, intuída por tantos mais, vivida e manifestada em toda a forma de vida terrena. Não sendo alheias, nem feitas fora dos mesmos limites de uma lógica divina, uma inteligência cósmica, um pulsar universal.

Passamos pelo tempo, como as folhas, as marés, vivemos as estações personificando cada uma das quatro, a seu tempo, na sua hora. Ritualizamos essas passagens, com o corpo e os costumes.

Na Primavera, somos a jovem inocente, que perde a inocência aquando da menarca, a primeira Lua, do primeiro sangue que vence a infância e transforma a menina e moça em mulherzinha. Em muitas tradições, e também em Portugal, em tempos mais antigos, este momento é abençoado, celebrado e ritualizado com uma cerimónia que ao invés de esconder, anuncia e vivifica o acontecimento, marcando para a eternidade a mulherzinha que acaba de nascer e que deverá crescer para ser Mulher, criar, gerar vida, e cuidar dessa vida ao mesmo tempo que ocupa o seu lugar na comunidade, servindo em alguma actividade, usando os seus dons e talentos ou aprendendo as artes e ofícios a que é chamada no seu entorno familiar e social.

Chega ao Verão, com o corpo já amadurecido, pronto para dar à luz um projecto criativo, um filho, uma criação que é manifestação do seu potencial. E que nesta fase é já partilhado com um segundo elemento, uma companhia, uma parceria, uma alma gémea. Essa união é comumente ritualizada sob a forma de matrimónio, antecedido de um outro ritual de despedida. Com o nascimento de um filho, há tradições que inclusivamente fazem rituais com a placenta, enterrando-a ou queimando-a.

No Outono, já tendo adquirido a experiência de tantos ciclos, e contactado com uma intuição em crescente consolidação e domínio, assumimos uma mestria de feiticeira, dominando os elementos, intuindo o que necessita ser curado, e usando a nossa clarividência para actuar sobre as situações. Nesta fase despedimo-nos de uma vida menstrual cíclica, e da possibilidade de gerar vida no nosso ventre: entramos na menopausa. Fecha-se o ciclo iniciado na menarca. Se na nossa sociedade esta passagem não obedece a nenhum ritual, há regiões do mundo onde é atribuído um significado e um sentido maior a esta transição.

Mesmo a morte, que chega tipicamente no nosso Inverno, – quando vestimos a vestes e a sabedoria de anciãs -, segue o seu curso não sem antes de uma despedida derradeira, eternizada numa cerimónia fúnebre com cânticos e louvores.

Esta correspondência com os ciclos naturais surge também no ciclo menstrual feminino, mensalmente, durante o qual vivemos as quatro estações, mais ou menos conscientemente.

A menstruação marca o início do Inverno, a estação do recolhimento por excelência, onde só apetece estar na toca, no aconchego do lar, quente e nutridor. O tempo agreste não convida a sociabilizações, nem a nossa disposição. Da mesma forma que muitos animais hibernam, em muitas culturas as mulheres retiram-se para um quarto, de onde saiem quando a menstruação cessa. É uma fase de estados alterados de consciência onde a intuição, os sonhos vívidos, premonitórios, dão sinal de vida. Um banho de imersão relaxante, com alfazema, é um ritual que faz maravilhas, assim como escrever num diário.

Com a chegada da Primavera, entramos na fase pré-ovulatória, e sentimos uma nova disposição. Da mesma forma que os dias vão ficando mais cálidos e longos, também nós ficamos mais enérgicas, mais sociais, mais atraentes, e assertivas. A nossa pele fica mais brilhante, e mesmo a nossa voz se torna mais aclarada e doce. Parecemos flutuar, e a motivação para os afazeres decorre naturalmente, assim como a nossa agilidade emocional. Tudo flui e conflui em harmonia. Uma caminhada, uma esfoliação e massagem corporal, são pequenos rituais que elevam ainda mais o corpo e o espírito.

E bem-vindas ao Verão, estamos na ovulação, estamos no pico da expressividade, da sociabilidade, a líbido está no auge, o acto sexual é mais ardente, nada nos pára. Todos os sentidos estão mais apurados, emanamos sensualidade. O nosso sentido biológico pede-nos para nos reproduzirmos, e as nossas hormonas induzem-nos a esse estado mais arrebatado. Tudo parece mais fácil, leve e optimista. Lidamos melhor com a desarrumação, os imprevistos, o caos, dentro ou fora de nós. Dançar, estar com a tribo, ou com a nossa cara-metade num encontro só nosso, são rituais que fazem a delícia desta fase do mês.

Até que entramos no Outono, e a fase pré-menstrual traz consigo uma inconsistência nos níveis de energia, uma volatilidade emocional e sensibilidade física notáveis. A pele também se altera, podendo ficar mais oleosa e acneica. Ficamos mais inchadas no ventre, e nos seios. Até a digestão fica mais comprometida. A letargia e melancolia invadem-nos lentamente, com aguaceiros de lágrimas nem sempre com causa identificável. Como também uma vontade de ter tudo arrumado, no lugar, numa pressa injustificada. Nada como abrandar e aproveitar a onda para um ritual de limpeza, seja de pele, seja de uma gaveta, da carteira, ao som de uma música que nos encha a alma. Estamos a passos de entrar na menstruação, dando início a um novo ciclo, a uma nova aprendizagem, a uma renovação.

Cada ciclo é uma oportunidade de processarmos e reciclarmos emoções, histórias, memórias, numa estreita dialéctica mente-corpo. Todas as fases são importantes e desvendam o que necessita ser equilibrado, o que está em excesso ou défice, numa constante busca pela auto-regulação, pela homeostasia. Pequenos rituais de autocuidado ao longo do ciclo, ajudam-nos a navegar essas quatro estações em consonância com o nosso biorritmo, cultivando, ao mesmo tempo, o autoconhecimento e um estilo de vida saudável.