Ser sazonal

“Tudo está interligado. O céu e a terra, o ar e a água. Todos são senão a mesma coisa; não quatro, não duas, não três, mas uma. Se não estiverem juntas, o que temos é uma peça incompleta.” Paracelso

Paracelso (1493 – 1541), médico, alquimista, físico e astrólogo, que revolucionou a história da medicina com a introdução dos minerais – como o zinco, o manganês e o ferro -, nos tratamentos de várias maleitas, das quais se destaca a então terrível sífilis (cujo tratamento com mercúrio veio a constituir-se um sucesso), encarava o Homem como uma representação micro, do macrocosmos. Homem e Cosmos eram forjados pelos mesmos elementos, e o Homem em si continha os vários elementos químicos presentes no planeta, e no Universo.

Actualmente, com a descoberta da microbiota, sabemos também que o nosso intestino é um microcosmos de bactérias, fungos, vírus, e células humanas, que coabitam simbioticamente, e são parte integrante do corpo humano.

A Terra, planeta vivo, tal como o Homem, auto-regula-se.  Os mecanismos de auto-regulação humana apelidam-se de homeostasia; no caso do planeta Terra, o nome é mais intuitivo e conhecido: as estações.

Cada estação marca uma fase importante no grande sistema vivo, e cada fase reveste-se de uma função vital, preparando terreno para a próxima estação. E tudo está interligado, todos os seres vivos concorrem para a vivência das estações, e quando os homens as integram no seu viver, também eles garantem a sua óptima auto-regulação.

De que maneira podemos viver a sazonalidade?

Se naturalmente usamos roupas frescas no Verão, e agasalhos no Inverno, já no campo da alimentação e estilo de vida, a intuição pode perder-se num mundo global, onde podemos encontrar nos mercados nacionais alimentos de países do hemisfério oposto, onde a estação é…a oposta!

E porque cada alimento vem na sua estação própria, e com uma função apropriada às características dessa mesma estação, nada como observarmos a Natureza em redor e guiarmo-nos por ela. Nas cidades o desafio é ler a origem das frutas e hortículas: o que é nacional é da época!

O Inverno, estação fria e húmida, oferece-nos citrinos, ricos em vitamina C, para fortalecimento do sistema imunitário, e raízes, nabo, cenoura, cebola, alho francês, beterraba, bem como abóbora e couves, alimentos que necessitam ser cozinhados, e por esse meio, nos aquecem. Os frutos secos, de casca dura, como as amêndoas, nozes, castanhas e pinhões, colhidos no Outono, preservam-se muito bem, e são fontes ricas em gordura, tão necessária à produção de energia. Estação por excelência da inactividade, de hibernação de muitos animais, convida-nos a ficar mais em casa, em recolhimento, em reflexão, em acumulação de energia, pois o frio rouba-nos o fogo interior, desgasta-nos energeticamente. As árvores estão também despidas, toda a energia está concentrada nas raízes, as sementes estão enterradas a prepararem-se para germinar com a estação seguinte;

A Primavera, majestosa, é o eclodir da semente adormecida, o sair da toca, tudo em volta seduz os nossos sentidos. Ainda fria, mas já mais amena, é a estação da geração, da fertilidade, da polinização, da exuberância, a energia é de extroversão, de sociabilização. Presenteia-nos com muitas ervas aromáticas, espargos, ervilhas, favas, morangos, nêsperas, alperces, cerejas, mirtilos, fruta doce e cheirosa, que nos atrai para que a consumamos e assim transportemos as sementes, os caroços – futuras sementes se encontrarem um solo fértil para as acolher. Sendo uma estação de limpeza por excelência, pela acção do pólen no ar que inspiramos e nos causa reacções alérgicas, é também a estação que nos coloca à disposição plantas medicinais para mitigar os sintomas, com propriedades anti-histamínicas, antivirais, antibacterianas, diuréticas e desintoxicantes: urtigas, sabugueiro, alfazema, calêndula, malva, camomila, carqueja, esteva, dente de leão, cardo mariano;

O Verão, quente e seco, pede água, e por isso disponibiliza-nos alimentos sumarentos e hidratantes: pepinos, pimentos, tomate, milho-doce, feijão-verde, melão, melancia, pêssegos, ameixas, figos, uvas, amoras. Os dias longos e abafados exigem uma sesta demorada. É tempo de maturar, de nos relacionarmos, aproveitar o sol, descansar, carregar energia para a estação seguinte que é trabalhosa e requer produtividade. O final do Verão é também propício à desintoxicação, preparando o organismo para uma nova fase que pede equilíbrio;

O Outono, estação onde o arrefecimento se começa a sentir, é a estação de colheitas por excelência. Os campos, generosamente carregados de culturas, oferecem cereais, batata, azeitona, couve galega, lombarda, brócolos, amêndoas, avelãs, nozes, castanhas, romãs, marmelos, dióspiros e tangerinas. Novamente a Natureza nos regala frutas ricas em antioxidantes e vitamina C, e alimentos que pedem cozedura, e permitem uma conservação duradoura, como que a preparar-nos para a estação seguinte, o Hibernu ou tempus hibernus – tempo hibernal. Estação que nos pede foco, trabalho, acumulação, e também um voltar para dentro. A época da expansão, da sociabilidade plena ficou para trás, o tempo agora é de meditação, ponderação, planeamento. Os dias estão mais curtos, a limitarem a nossa acção (em tempos pré-electricidade, a longevidade da luz solar diária marcava de facto o recolher a casa).

Incorporarmos as estações nas nossas vidas é fluir com um sistema organizado, de que somos parte e reflexo.

Ser sazonal é estar em sintonia com os ciclos naturais, com os fluxos naturais energéticos, interiorizando na nossa vivência a introspecção (Outono e Inverno) e a extroversão (Primavera e Verão).

Curiosamente, o actual surto pandémico que assola o nosso mundo humano, surge na China, em plena transição do Outono para o Inverno, forçando um isolamento social e um refrear de actividades lúdicas e recreativas, realidade que outrora acontecia naturalmente.

A Terra respira através das estações: inalando ar frio outonal e invernal, exalando ar quente primaveril e veraneante.

Ironicamente (ou sabiamente!), o vírus que ataca a nossa função respiratória impele-nos para o recolhimento e a introspecção colectivos, vivendo ao ritmo da Mãe Natureza, adoptando a sua sabedoria, respirando com ela.

Deus escreve direito, por linhas tortas.